Não existe nenhuma dignidade na morte.

Março 2, 2009 at 1:24 am (Desabafo) (, , , , , , , , )

Ok, antes de tudo, não. Esse não é um post depressivo, é sobre um tema que eu sempre tive dificuldades, na verdade a dificuldade é sobre a morte, mais do que a vida… Mas atualmente a area que eu sigo eu verei muito isso…

O motivo que me fez falar sobre isso é devido o que aconteceu na ultima sexta, no meu estagio a gente pega muitos pacientes que a gente sabe que dificilmente irão sair de lá. Tanto pela doença dos pacientes quanto pelos recursos do hospital.

Para vocês entenderem melhor vou explicar como é feito no estagio, assim que chegamos no hospital e subimos para a ala que iremos ficar, então a nossa supervisora nos divide em duplas ou trios, dependendo de quantos nós somos e após dividos ela passa o leito que cada dupla ou trio irá ficar, pegamos geralmente dois leitos, as vezes três dependendo do numero de leitos e de estagiarios.

No dia 20 de Fevereiro, fiquei em trio com a Tania e a Terezinha, ficamos responsaveis por três leitos, um dos leitos tinha um paciente deambulante, que é o paciente que anda sozinho, e dois pacientes acamados. Um deles era um senhor cego e quase surdo que estava todo atrofiado, o outro era um senhor também, chamado João, com o calcanhar dos dois pés necrosados.

Como rotina do técnico de enfermagem, tivemos que dar banho de leito nele, trocar a roupa de cama e a fralda e fazer os curativos, esse segundo senhor com os calcanhares necrosado, ele gritava a cada toque nele, sabiamos que alguns realmente doia, quando tocavamos em suas escaras ou outrosmachucados, mas algumas vezes ele gritava apenas por estarmos jogando agua nele, o que pensavamos que era mais frescura, eu me lembro que no dia estava com uma grande dor de cabeça pois estava resfriada (antes que falem algo eu usei mascara o tempo todo para evitar que meu resfriado passasse para os pacientes), e os gritos dele faziam minha cabeça doer mais, eu me lembro que fiquei com um pouco de raiva dele por isso, não pelos seus gritos de dor real, mas quando ele gritava só de ver a gente se aproximando dele, sabia que ele podia ter na verdade algum trauma de enfermeiras para ter medo dessa forma, mas o resfriado, o uso incomodo da mascara fez com que eu me importasse mais com a minha dor do que com o psicologico do paciente.

Quando eu sai do hospital ele estava bem, pelo menos estava melhor do que alguns dos outros pacientes. Nessa sexta, dia 27 voltei para o estagio, devido a problemas de insonia tinha dormido apenas 2:20hrs naquela noite, quando cheguei no hospital estava com dor de cabeça e assim que fiquei como parceira do Leonoardo, eu torci para que a nossa supervisora não me colocasse com ele, minha torcida valeu a pena, fiquei com os pacientes da primeira enfermaria, longe do Sr. João. Por terminarmos os procedimentos cedo eu andei pelo hospital para saber quem eu poderia ajudar, foi então que eu fiquei sabendo que um paciente tinha vindo ao óbito e ao procurar saber quem era, descobri que era o Sr. João.

O Sr. João tinha tipo falencia renal a dois dias e quem estava tratando dele eramos proficionais da enfermagem, devido ao seu estado não colocaram estagiários para ele, eu fui então ver o Sr. João, tirando o fato que seu leito estava protegido de ser visto pelos demais, ele parecia bem, ele não parecia ter partido, parecia que estava apenas dormindo.

A morte sempre foi e continua sendo um Tabu para mim, eu tenho religião, acredito em espirito, em lugar melhor, em reencarnação… Mas sempre que alguém morre, para mim parece que acabou ali, o corpo morreu e tudo se foi… Quando alguém morre, é feito nos hospitais, um procedimento que é chamado de “pacote” em resumo o pacote é a preparação do cadaver para ser levado ao necroterio, como isso é feito? Primeiramente o corpo é limpo, os curativos são refeitos e então são tapados todos os orficios com algodões, pois os liquidos do corpo começam a sair e é feito isso para que quando a familia vá reconhecer o corpo, ele não esteja sujo. Após tapados todos os orificios (e isso inclui o anus para os homens e anus e vagina nas mulheres), pés, mãos e queixo são amarrados, é colocado a identificação no paciente e seu corpo é coberto ou por lençois ou por um saco próprio quando o hospital tem. O corpo então é colocado na maca e levado pelo maqueiro para o necroterio, onde ele é colocado na “geladeira”.

Bem pelo procedimento que eu acabei de contar, pode-se imaginar que o pacote não é o procedimento favorito de ser feito. Pelo menos não para mim, não para quem a morte é um tabu.

Após ver o corpo eu fui perguntar a minha supervisora o que eu poderia fazer, já que ninguem precisava de ajuda com seus devidos pacientes, ela me sugeriu ver como é feito o pacote, para que eu aprendesse, eu pensei em perguntar se ela não tinha nada pior para sugerir que eu fizesse, mas eu não sei se é o fato de como eu vejo a morte, ou se é porque eu tinha cuidado dele semana passada e torcido para não ficar com ele esse semana que me fez querer ir ver, sei lá… Eu sei que a culpa do óbito dele não era minha, nem de longe… Mas eu fiquei na cabeça que devia algo a ele e resolvi ir lá.

Vou te dizer que mais observei do que ajudei, a primeira coisa que me vinha a mente era que agora ele não gritava mais quando tocavamos nele… Eu tinha pedido para que ele parasse de gritar na semana passada e essa semana que ele não gritava mais, eu torcia para escutar novamente seus gritos e sentr minha cabeça explodindo.

Eu sabia que ele já tinha morrido, mas a ficha parecia não querer cair, eu não conseguia pensar que agora estava mexendo em um corpo já sem vida, que eu estudei pra caramba e desta vez não estava fazendo nada para melhorar a vida de alguem, os cuidados que eu estava tendo não adiantariam de nada. Cara eu estudei para cuidar da vida e não da morte.

Me sentia mal pro estar mexendo ali no corpo dele, sem ele poder dizer se estava doendo, se ele estava envergonhado, se ele sentia-se mal por tocarmos em suas partes intimas, mesmo que para limpa-las, me sentia mal por estar violando seu corpo, por mais que eu soubesse que eseera o procedimento certo a ser feito, eu me via deitada naquele leito e as pessoas me tratando do mesmo jeito e percebi o quão horrivel isso é, percebi que por mais que levemos uma vida com dignidade, que por mais recatados que sejamos, que no fim, não existe nenhuma dignidade, foi então que uma frase do seriado “House” ficou em minha mente, a frase é algo mais ou menos assim.

“Não existe nenhuma dignidade na morte, você pode escolher viver com dignidade, mas não morrer com ela. É sempre feio…”

Eu entendi mais do que nunca o que essa frase quer dizer, no fim teremos pessoas violando nosso corpo, você terá sorte se pegar alguem que tenha um respeito maior com seu corpo, independente de como você tenha vivido.

O que eu fiz efetivamente foi amarrar os pés do Sr. João, o corpo dele ainda estava mole e por eu não segurar direito suas pernas ela acabava se mexendo, isso aconteceu umas três vezes eu eu nas três vezes quase me vireie pedi para o Sr. João ficar com a perna parada.

Eu percebi que mesmo que não tenha chorado copiosamente com a morte dele, a morte do Sr. João me ez me sentir mal, minha mãe diz que eu tenho que me acostumar com a morte na minha profissão, mas eu não estudei para me acostumar com a morte e sim para evita-la. Acho que mesmo trabalhando o resto da minha vida com isso, nunca me acostumarei com a morte.

Eu não tenho uma finalização legal para esse post, queria apenas falar algo que eu precisava desabafar e pedir desculpas para o Sr. João, se ele não for apenas aquele corpo que eu vi, ele estara em um bom lugar, onde não sentira mais dores, então, lhe peço desculpas por não ter te dado mais atenção, por ter ficado com raiva quando você gritava… Me desculpe.

3 Comentários

  1. christy disse,

    A morte nunca é bela… por mais que muitos poetas, ou contos a relatem como algo glorioso, belo, no qual vc ve ou imagina tudo cercado por flores, ou com as devidas despedidas. até aquele ponto ela não foi bela.

    Eu particularmente acredito, que quando aprtimos, algo: alma, espirito, o que vc acreditar continua, segue adiante. não consigo apenas acreditar que com a morte tudo acabe, tudo termine. geralmente das pessoas queridas minhas que ja falaceram, por mais que eu os tenha visto mortos. a unica imagem que minha mente ainda tem é deles vivos…

    Talvez seja isso o mais importante ou não. Nesse caso em aprticular, talvez a imagem mais serena e bela foi a dele depois de partir, sem suas dores, seus suas lamurias, e com certeza um lugar melhor ou ao menos sem tais dores ele se encontra.

    E nessa horas so uma coisa a pensar e pedir: que ele vá em paz.

    A vida e a morte andam juntas, numa linha imaginaria enfraquecida. Talvez o maior misterio não seja o pos morte.. mas sim: evitar a morte. e isso poucos realmente conseguem =)

    viver é preciso o/]

    beijocas mih.

    Sr. João está em paz =)

  2. Érica disse,

    Nosa kaká…eu to até sem palavras com isso, eu também acho a questão da morte algo complexo, eu não consigo imaginar perder alguem, parece que não aconteçeu nada como voce mesma disse, parece que a pessoa está apenas dormindo.

    Sempre vão acontecer coisas assim, e o melhor que voce tem que fazer é guardar algo bom da pessoa com voce.

    Com certeza ele está melhor que aqui, sem dr, sem sofrimento.

    Beijos

  3. Lilian Raquel disse,

    Odeio ser fraca, então por teimosia voltei para terminar de ler o post, mesmo ele me fazendo lembrar em cada segundo como minha mãe deve ter sido tratada…eu espero que nos que ela já não estava mais naquele corpo, alguém tenha cuidado bem dela.

    Realmente não existe dignidade na morte, e por isso que dizem que não levamos nada desse mundo, pois realmente nessas horas não importa se foi a pessoa mais rica do mundo ou a mais humilde, o procedimento vai ser o mesmo.

    Eu acho que nao tem como se acostumar nunca com isso Ká, mas pelo menos voce é alguem que faz a diferença, pois acho que quando um profissional se acostumar com a morte, ele não vai lutar tanto pela vida do paciente, pode ser que tanto faz, tanto fez.

    termino esse comentario chorando como vc deve estar imaginando, mas o seu post foi muito bom, doi, mas é a realidade.

    vá em paz Sr. João.
    abraços Ká

Comente